quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA ESTÁ NO DIA A DIA DA SST

Algum tempo atrás vi o filme “Ensaio sobre a Cegueira”, de 2008 produzido pelo Japão, Brasil e Canadá, e dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. O filme foi rodado em Toronto, no Canadá, em São Paulo e Osasco no Brasil e em Montevidéu no Uruguai. O seu roteiro foi baseado no livro “Ensaio sobre a Cegueira”, de 1995 do escritor português José Saramago, vencedor do Prémio Nobel de 1998. Ele trata de uma epidemia de cegueira que prolifera-se por uma cidade moderna, resultando no colapso da sociedade.


Figura: Cartaz do filme “Ensaio sobre a cegueira (Blindness)”

No meu dia a dia lidando com SST – Segurança e Saúde no Trabalho, tenho reparado que a ficção virou realidade, existe um cegueira disseminada, parece que as pessoas não percebem que precisam enxergar certas coisas. Estou falando de que algumas pessoas que são “partes interessadas” (ex: acionistas, gestores, cargos de chefia, profissionais do SESMT, trabalhadores...) não querem “aprender a pescar”, querem tudo pronto, o peixe pronto servido na mesa acompanhado de: pirão, arroz, salada e pimenta.

Quando se tem um problema o “peixe pronto” reduz o tempo é só executar o modelo criado e enviado por alguém. Eu sou de uma geração que foi preparada para pensar, me lembro quando li “O Velho e o Mar” do Ernest Hemingway, o “Demian” do Herman Hesse e “o Estrangeiro” do escritor francês Albert Camus, livros para pensar e se auto - conhecer.

Hoje as informações estão “chegando” de forma muito rápida, as pesquisas no Google facilitam em muito nossa vida, só que às vezes o que vem, tem estética, bom conteúdo aparente e nos agrada, mas em alguns casos o que está ali é inconsistente e não faz sentido é necessário pensar e refletir para entender que o que está ali não deve ser usado. 

Exemplos sobre a “cegueira” são fáceis de serem identificados, dentre eles listamos:

Apesar do afastamento de vários trabalhadores pela CID F (Transtornos Mentais e Comportamentais), principalmente CID F 32 (Episódios Depressivos), os gestores não estão utilizando metodologias para avaliar os Riscos Psicossociais. Assim, não se tem como atuar na origem dos problemas, minimizando os efeitos nos trabalhadores expostos e inclusive sobre o aspecto financeiro com a redução do FAP (economia para empresa), isto representa uma incerteza para se atingir os objetivos na Gestão de Riscos.

Na grande maioria das empresas não tem Auditores Internos de SST, isto significa uma lacuna fundamental na gestão. Quem está identificando os Pontos Fortes e as Oportunidades de melhoria na Gestão?.

Treinamentos de Espaço Confinado e/ou Trabalho em Altura são realizados por Empresas Contratadas que levam seus equipamentos para a parte prática, tudo ocorre como planejado e este é bem avaliado. Ao seu término eles levam estes equipamentos e na empresa não tem nada similar. De que adiantou fazer este treinamento? 

Uma empresa que tem muitos afastamentos de trabalhadores por doenças ocupacionais, busca uma solução rápida para reverter este quadro. Os gestores então usam um modelo que foi criado para que qualquer empresa use, sem pensar na sua realidade, na cultura existente na empresa e de que este modelo pode até funcionar por um determinado período e depois tudo volta ao normal. De que adiantou fazer esta ação paliativa?

Profissionais de SST vão ministrar treinamentos e pedem arquivo power point pronto, para os amigos, para os grupos, se esquecendo que quem criou o mesmo, tem uma sequência lógica da apresentação, sendo portanto difícil seu uso por outra pessoa que não o criador. Fora que talvez alguns tópicos que são importantes para o desenvolvimento do treinamento, nem constem do arquivo. 

Voltando ao filme do início deste Blog, “ele se passa numa grande cidade, o trânsito é subitamente atrapalhado quando um motorista de origem japonesa, não consegue dirigir e diz ter ficado cego. Ele é ajudado a chegar em casa por um homem, que acaba por roubar seu carro. No dia seguinte ele e a mulher vão consultar um oftalmologista, que não descobre nada de errado com os olhos do primeiro cego. Esse diz ainda que uma "luz branca" impede a sua visão. Pouco tempo depois, todas as pessoas que tiveram contato com o primeiro cego - sua esposa, o ladrão, o médico e os pacientes da sala de espera do consultório - também ficam cegas. O governo trata a doença como uma epidemia e imediatamente coloca de quarentena os doentes, em uma instalação vigiada o tempo todo por soldados armados. A mulher do oftalmologista é a única que não é afetada, mas finge estar com a doença para acompanhar o marido em seu confinamento” (Wikipédia).

Fazendo uma analogia com o filme, a “cegueira na SST” de que falo é de olhos abertos, os acionistas e a alta direção da empresa são os oftalmologistas do filme e o nosso governo não trata esta como uma epidemia, principalmente por não contar em seus quadros com: Médicos do Trabalho e Engenheiros de Segurança do Trabalho (estão em extinção), estas profissões precisam voltar ao quadro de Auditores Fiscais. A cura está no pensar, no aprender a pensar, no aprender a pescar e aqueles que veem este quadro que tracei e fingem estar “cegos”, que saiam desta condição e passem a fazer coro para esta mudança, para esta “nova segurança”, que precisa acontecer, uma vez que é importante começar o quanto antes este processo. Voltem a enxergar!. 

Traduza este texto para sua realidade e faça comentários eu gostaria de recebê-los.


Abraços, 

ARmando Campos

Um comentário:

Gilvan Ramos disse...

Meus parabéns pelo excelente texto, deveria ser publicado em um jornal de grande circulação, os profissionais que atuam com SST precisam enxergar, urgente!